Sidival Fila: A dignidade da matéria
Sidival Fila: A dignidade da matéria
Que memória pode residir na matéria? O que nela permanece, lembrado, do tempo que a atravessou? Sidival Fila é um artista que nos faz refletir sobre essas perguntas. Ele trabalha com tecidos: linhos antigos, brocados eclesiásticos, sedas florais, tecidos guatemaltecos. Em suas obras vemos manchas de beges rosados salpicados de oxidações, infiltrações que se espraiaram pelas fibras por capilaridade, o acinzentado da sujeira acumulada, marcas de gordura do uso contínuo, perfurações de insetos, desgastes estruturais. Toda a lenta ação do tempo guardado. Não existe matéria neutra.
Retirados do circuito da utilidade, esses tecidos se ausentam de suas funções originais, e é nesse ponto de exaustão que a matéria começa a falar. Fila não restaura os tecidos. Ele não busca dominá-los; escuta-os. E, nessa escuta, algo que era resto torna-se presença numinosa. Não se trata de devolver à matéria a função perdida, mas de permitir que ela revele aquilo que nela sempre existiu.
Essa ética é fruto de uma trajetória particular, não de uma investigação exclusivamente formal. Artista pouco conhecido no Brasil, Fila nasceu em Arapongas, Paraná, em 1962. Seu primeiro encontro com a arte se deu pela via das reproduções de obras que descobriu nos livros. Imagens deslocadas e mediadas. No final da adolescência, mudou-se para São Paulo, e pouco depois transferiu-se para Roma, onde vive e trabalha.
Em Roma, trabalhou em bares e restaurantes até que uma crise existencial o levou a ingressar na Ordem dos Frades Menores, no desejo de viver uma vida de caridade, uma existência dirigida ao outro. Nessa experiência franciscana, sua investigação sobre a matéria encontrou forma. A espiritualidade franciscana atua como chave silenciosa de sua prática: teologia do mínimo, silêncio conventual, reflexão persistente sobre a matéria. A pobreza como escolha, o tecido como hábito, o remendo como linguagem.
O decisivo dos tecidos de Fila é que eles não constroem um sistema totalizante. O que se delineia é a revelação de uma ordem latente que se deixa entrever na persistência do fragmento. No entanto, esses fragmentos insinuam uma coerência: eles carregam as marcas de uma vida anterior, apesar de não estarem condenados a ela. Isso depende de uma ação que não submete nem violenta, mas acolhe.
A intervenção de Fila, ao trabalhar seus tecidos, é por vezes mínima. O simples esticar de um tecido cuja eloquência reside na própria trama, como nas séries Seda antiga e Linho antigo. Em outros momentos, mais incisiva: costura, tensiona, recorta, suspende. Mas jamais impositiva. Ele cria as condições para que a matéria se manifeste, reconhecendo nela suas altas autenticidades. A matéria, então, deixa de valer pelo que serviu e passa a valer pelo que acumulou.
É significativo que essa obra, construída na escuta do mínimo, encontre agora o lugar de onde partiu. Nesta que é sua primeira individual no Brasil, Fila apresenta um conjunto de obras que se alternam entre o íntimo e o monumental. Os pequenos linhos e as sedas exigem aproximação e cuidado. Obras como Metáfora branca, com seus fragmentos suturados, instauram outra escala. E, ainda assim, apesar da variedade de dimensões, cada peça mantém sua integridade. Nada é disfarçado.
Essa dimensão de desvelamento torna-se clara nos trabalhos da série Flores. Sedas florais pintadas do século XIX são coladas sobre placas de espelho, interrompendo a contemplação frontal. O espectador surge na superfície, e seu corpo é capturado entre as flores. Diante desses tecidos carregados de séculos, vemos a nossa própria coreografia do tempo. O reflexo transfigura-se em inscrição de passagem. Ao caminhar entre essas obras, compreendemos que a matéria não é apenas passado, mas duração em curso.
Assim, a exposição apresenta superfícies temporais que persistem em sua dignidade. O que antes servia agora significa. O que antes ornava agora testemunha. Quando o espelho devolve nossa imagem entre as flores, entendemos que a dignidade da matéria não é uma qualidade que concedemos a ela. É algo que reconhecemos.
Ao devolver visibilidade ao que foi descartado, Sidival Fila afirma algo essencial: aquilo que perdeu função não perdeu sentido.
Em um tempo que consome e descarta com rapidez, a obra de Fila nos impõe outra cadência. Seu trabalho afirma o humanismo silencioso que é o reconhecimento da dignidade das coisas.
— Giancarlo Hannud
