Bernardo Ortiz: Um tumulto de titubeios
Bernardo Ortiz: Um tumulto de titubeios
Em Um tumulto de titubeios, exposição do artista colombiano Bernardo Ortiz, reaparece com clareza a preocupação que atravessa toda a sua trajetória: por um lado, o olhar sobre o mundo por meio do desenho e, em algumas ocasiões, a relação entre palavra e imagem. Uma tensão que não se inscreve apenas em cada obra, mas que revela algo sobre sua maneira de compreendê-lo. Esta mostra na galeria Luisa Strina sustenta-se nessa indagação persistente acerca do que significa desenhar, quais são seus materiais e que acontecimentos o tornam possível. Em cada uma das peças que a compõem, os materiais, as formas e os traços não são casuais: tudo está cuidadosamente disposto no espaço. Poderíamos inclusive dizer que o conjunto constitui um desenho errante, na medida em que desenhar implica ensaiar constantemente uma forma de ver.
Em sua obra há também uma insistência em perceber os acidentes, aquilo que não pode ser controlado. Muitas de suas peças acolhem o que poderíamos chamar de erros: desenhos que permaneceram perdidos durante anos, guardados, e que depois reapareceram carregados de novos sentidos. Os próprios materiais participam dessa deriva. São escolhidos por ele com o rigor e a precisão de alguém com um olhar semelhante ao de um arquiteto, mas também por alguém interessado na vida própria dos suportes. A folha em branco não existe. O papel não é um fundo neutro: respira, ondula, envelhece. As tintas com as quais experimenta também têm história: assentam, diluem-se, transformam-se. Nada permanece intacto. Mesmo uma mancha que surge com o passar dos anos, produto da umidade ou do confinamento prolongado, deixa de ser uma falha para se converter em acontecimento. Não é corrigida nem ocultada: integra-se. Nesse gesto, o desenho não se protege do tempo.
Para nós, a obra funciona também como espelho de seu olhar. Convida, e até nos obriga, a observá-la e pensá-la com atenção. O paradoxo diante de cada peça é que aquilo que inicialmente percebemos como estrutura não passa da inscrição do veloz, do simultâneo, do confuso e do anacrônico da vida. Seu trabalho não é sistemático nem científico; não exige uma sequência fixa. Há um jogo: a estrutura pode sempre se reorganizar: começar pelo penúltimo, regressar ao início, alterar a ordem. Não se trata de um andaime destinado a sustentar algo, mas de uma disposição abstrata e diagramática, capaz de se deslocar repetidas vezes. Nesse movimento reside sua potência. Não encerra o sentido, mas deixa aberto um espaço para a mudança.
Em outras palavras, o que aparece como ordem é, na realidade, a marca da própria vida, que jamais se apresenta como homogênea e muito menos previsível: seu trabalho responde pelo múltiplo, por uma experiência feita de camadas sobrepostas, de fragmentos que dão conta de uma condição contemporânea marcada pela dispersão. Sua obra registra suas próprias experiências cotidianas. Os seus apontamentos diários, fragmentos de leituras e imagens que o acompanharam convivem sem hierarquia e, mesmo, nesse sentido, a obra introduzindo uma dimensão biográfica, esta não busca ser uma confissão, mas converte-se em testemunho de uma simultaneidade. O resultado jamais pode ser entendido como síntese ou abstração; deve ser compreendido como superposição: cada peça sustenta, ao mesmo tempo, técnica e cálculo, mas também imprevisibilidade e memória. Sua insistência no desenho é precisamente essa, como ele próprio afirma: "somente por meio dele existe a possibilidade de precisão, mesmo em coisas que não são precisas", como a própria vida.
Nesse sentido, desenhar é inaugurar uma experiência do mundo; cada desenho cria um fato novo. Ainda que haja método e estrutura, há também especulação. Por isso, não é casual que o artista circule e jogue entre a palavra e a imagem: desenho que se torna texto e texto que se torna desenho. E embora diante da palavra não pareça haver suspeita, pois a ela se atribui o império do significado, aqui ela se apresenta de outra forma. Sua aparente estabilidade se fissura; o sentido deixa de ser fixo e começa a deslocar-se. Nesse giro, em que o desenho evita a clareza e a palavra assume sua ambiguidade, não resta outra opção senão aprender a ver novamente. Estamos acostumados a que tanto as palavras quanto as imagens se dirijam sobretudo à visão; no entanto, neste jogo, elas obrigam os demais sentidos a se envolverem, assim como a emoção e a memória.
Em Um tumulto de titubeios penso também naquilo que não conseguimos perceber nem compreender por completo. Não se trata apenas de reconhecer que o significado esteja sempre oculto, mas de aceitar que é inalcançável. Recordemos por um momento o mito da caverna, em que a representação da realidade permanece sempre na sombra, sempre oculta. Aqui, o que menos importa é realmente saber o que há por trás ou como se produz essa imagem; o que de fato importa é estar sempre à espera daquilo que as sombras mostrem, ainda que de forma incompleta.
Em um texto escrito há muitos anos, Bernardo afirmou que esse esforço de compreender, e ouso dizer agora, de desenhar, implica reconhecer e ampliar a distância em relação à realidade, em vez de eliminá-la. Comparava isso à diferença entre um míope que decide operar-se e outro que prefere continuar usando óculos. Há momentos, dizia ele, em que se pode preferir ver o mundo um pouco embaçado. Mas o que isso significa, afinal? O desenho não consiste simplesmente em tornar visível algo que já estava ali. Antes, permite revelar aquilo que normalmente não vemos. A perícia dos grandes desenhistas não está em mostrar algo como um objeto facilmente reconhecível; pelo contrário, está em nos permitir testemunhar como algo se torna visível. E isso é muito diferente. Trata-se de reconhecer a dimensão daquilo que permanece invisível mesmo quando se manifesta.
Ao nos confrontarmos com sua obra, já não vale a pena perguntar o que se esconde por trás dos traços. Arrisco dizer que Bernardo Ortiz, enquanto desenha, realiza uma experiência da cegueira. Desenhar não é afirmar uma imagem segura do mundo, mas atravessar um limiar de incerteza. Por isso, na imagem resta apenas o titubeio, a indecisão diante da possibilidade de dizer algo.
— Ximena Gama
Traduzido do espanhol por Jesús Arellano
