Apresentação

Marina Saleme: Ralo

 

O tempo é inerente às transformações da paisagem, bem como é determinante nas nossas experiências com a paisagem - recordações, pertencimentos, reconhecimentos e expectativas. Muito do que o pensamento ocidental organizou e sustentou, histórica e estruturalmente, no que diz respeito às relações entre tempo e paisagem (e suas equivalências e, consequentemente, nossas percepções espaciais), encontra-se em desconstrução e ampliação¹. Trata-se de um processo que gera outras tantas narrativas e impacta em como existimos e habitamos o planeta. Enquanto apenas alguns de nós nos inquietamos (pois há que se considerar os negacionistas que cerram os olhos) diante da conjuntura política, das modificações técnico-científicas nos modos de sobreviver e das perturbações irremediáveis no meio ambiente, a manutenção da vida está em desabamento. Finda-se uma era, extinguem-se espécies e dá-se o ponto final em um breve capítulo chamado humanidade, asseguram vozes indubitáveis de diversas origens e campos do saber.

 

Considerar o fim como futuro, como algo inevitável e que, assim, é incorporado ao presente pode nos apresentar um desafio de linguagem no tocante à produção e circulação de imagens de paisagens: o que ainda é possível construir acerca de algo em degradação? No seio dessa e de outras tantas problematizações, Marina Saleme vem experimentando, ao longo de seu percurso artístico, distintas formas de ver, de deglutir e de inventar uma paisagem, como uma espécie de troca de vibrações entre a subjetividade e a exterioridade - ambas aqui a serem compreendidas complexamente e como fenômenos ao mesmo tempo interdependentes e informados por dinâmicas próprias.

 

Com uma trajetória de 40 anos na pintura, a artista cria paisagens que prescindem da afirmação ou validação do real, sem segregar noções ou categorias (realistas, documentais, fictícias, poéticas) de mundos e suas imagens. Sua pintura sustenta-se em um campo de experimentação entre muitas compreensões de cultura e natureza², sem se esquecer de que esta última ainda é definida a partir dos vínculos humanos com o meio em que se dão. Por muito tempo prevaleceu a ideia de que a natureza é o amparo ontológico dos seres humanos - um lócus estável e imutável sobre o qual o drama humano (política, ética, história) acontece -, e Marina produz consciente dessa perspectiva, mas também atenta ao fato de que a natureza deixou de ser vista apenas como um cenário passivo, silencioso. Em seus trabalhos, essas distinções são carregadas de irradiações.

 

Não se trata de redundâncias, coincidências entre sujeito e natureza ou a mera lógica de seus encontros, mas podemos pensar que as pinturas que a artista apresenta na mostra Ralo parecem manter intencionalmente uma espécie de aspereza, de estranheza entre corpo (de quem pinta e de quem vê) e paisagem (como lugar ou recorte temporal de um lugar). Essa sensação ocorre por conta dos modos como a paisagem pode ser percebida (experiências propostas pela artista) ou das negociações e experimentações poéticas essenciais para se arriscar a pensar e pintar algo que não necessariamente encontra seu análogo (procedimento de criação dessas pinturas). Essas obras oferecem aos nossos olhos um atrito, um conflito, uma fricção. Isso parece acontecer graças a um procedimento de insistência presente no processo de Marina, que é a busca por traduzir expressões visuais daquilo que "pula no olho" para a tela, como ela conta. Esse deslocamento processual aceita acasos, refeituras, mudanças de ideia, numa espécie de mobilização poética onde compactuam gesto, tempo e convivência com as imagens. Há que se manter a capacidade de se assombrar, assim como a de questionar o que a pintura vai apresentando.

 

Nas obras de sua oitava mostra individual na galeria Luisa Strina, Marina Saleme engaja-se na produção de elementos bastante singulares, que para acontecerem no espaço pictórico encarnam, contraditoriamente, a visualidade de rastros, apagamentos e ausências, e se comportam como presenças dúbias e ambivalentes. Em Paisagem com ponte e quatro montanhas, um elemento vermelho e uma aura branca, uma velatura que o acompanha, cruzam a tela. Ao lado, um rebatimento, um espelhamento - ou seria um rastro ou fantasma? Ou algo que mudou de lugar, que deixou de existir e depositou ali indícios de sua presença? Com gestos livres, corporais e expressivos que constituem espaços com a cor, Marina logra composições cambiantes que se transfiguram na tela: seriam montanhas ou obstáculos, pontes ou ligaduras, rios ou caminhos, sobrados ou pontuações da existência humana, cachoeiras ou massas de cor? A paisagem acolhe essas vicissitudes em temporalidades que se alternam e/ou se sobrepõem: uma permanência fluída e aquilo que fica como índice de um acontecimento.

 

Assim, seus trabalhos versam sobre o tempo não como metáfora, mas se valem do tempo como estrutura de significação que se edifica com e na paisagem: reiterando, acrescentando, compondo, discernindo, fazendo escapar, propondo que aquilo que se vê é um enigma da forma e é parte de nossas experiências com o mundo. Nada parece estar dado ou se estruturar simplesmente. Marina pinta o que está localizado numa espécie de estágio final, como um frágil fio rasgando-se, dissolvendo-se, despedindo-se lentamente, em movência, escapando inclusive do olhar. A artista lida com um tempo que escorrega e questiona qual o substrato possível para emanar imagens. Marina constrói a imagem para deixar escapar, no que diz respeito ao seu "reconhecimento" ou à pluralidade de sentidos, e para quem sabe permitir que algo do que pintou se transmute em outra coisa. Essa sensação impregna bastante a atmosfera de Três e O rio.

 

O título da mostra vem dessas observações e propõe: o tempo é também aquilo que nos diz que nada voltará a ser como já foi. Podemos pensar que as obras de Marina Saleme estabelecem diálogo com o verso de Manoel de Barros: "O tempo só anda de ida". Em Ralo, o tempo tem uma dinâmica sem reversibilidade, sem retorno, sem volta. Também não há pausa. Tudo escoa, se esvai, flui. Em suas pinturas, o tempo é um emaranhado, sem começo, nem fim, incidindo texturas sobre as coisas e que, assim, vai nos conectando às energias de ação de suas realidades pictóricas.

 

A vivacidade da paleta cromática de Marina é uma questão fundamental nesse conjunto de obras. Azuis, verdes, pretos e vermelhos, assim mesmo, todos em plural, entram em embate. Quase não há linhas nessas pinturas. Mas perseveram massas de cor avizinhando-se, construindo o espaço, habitando as paisagens, constituindo adensamentos. Operando na construção de diferentes densidades de massas de cor, a artista parece comprimir o horizonte com os elementos que apresenta na tela, como em O céu vai virar mar,onde montanhas habitam a paisagem e preenchem com pretos uma grande parte do plano, conferindo um espaço de distinção entre céu e água.

 

E a cor parece vir lá de trás da obra e chega até a superfície. Os dourados são instantes nas paisagens, orientam o olhar, desequilibram e reequilibram a composição, geram contrastes. Para Marina, pintar com tinta a óleo é lidar com uma matéria que sugere um tempo de espera e de observação, pois há sempre algo que segue acontecendo enquanto o pincel está em pausa. "A cor é solução e ferramenta. É a cor que confere materialidade ao espaço", explica a artista. A cor acontece a partir de uma convivência com a tela preparada que ganha um fundo que vai sendo coberto, com pinceladas com mais ou menos intensidade, produzindo áreas de opacidade e de transparência, campos de transição e de degradês. O gesto de construção da cor é visível, fica na tela. E nesse exercício a cor se define.

 

As paisagens de Marina negam a lógica do inventário, ou seja, não precisam dar a ver o que está fora da tela, mas inauguram uma imagem instável, movediça, questionável. Nesse sentido, o poema Tortura, de Wislawa Szymborska, oferece um bonito eco: "Nada mudou./Além do curso dos rios,/do contorno das costas, matas, desertos e geleiras./Entre essas paisagens a pequena alma passeia,/some, volta, chega perto, voa longe,/estranha a si própria, inatingível,/ora certa, ora incerta da sua existência,/enquanto o corpo é, é, é/e não tem para onde ir".

  

— Galciani Neves

Abril de 2026

 



1. Nesse texto, embora as noções de natureza, paisagem, meio ambiente estejam um tanto borradas, há a consciência de que se trata de diferentes esferas da nossa relação com o mundo.

2. Para o antropólogo e sociólogo francês Bruno Latour, a dissociação drástica entre natureza e cultura é uma invenção do pensamento moderno que nunca funcionou na prática. Em seu livro Jamais fomos modernos (1991), o autor argumenta que essa rígida distinção entre natureza (leis físicas imutáveis) e cultura (sociedade, política e valores humanos) pode ser compreendida como uma ilusão criada pela Modernidade para explicar os modos de explorar a natureza e diferenciar seres humanos de seu ambiente.

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