Que beleza
"Tenta. Fracassa.
Não importa.
Tenta outra vez.
Fracassa de novo.
Fracassa melhor."
— Samuel Beckett em Worstward Ho (1983)
O projeto Que beleza foi concebido no final de 2023 com o objetivo de criar um espaço de interlocução sobre arte. As motivações para isso vinham da percepção de que há hoje no Brasil um circuito artístico robusto, produtivo, acelerado e, ao mesmo tempo, sem tempo nem espaço para a atenção, a reflexão, a crítica e o debate - e aquilo que é normalmente chamado de debate costuma se resumir à exibição de pontos de vista mais ou menos diferentes, mas tendentes à convergência. Um ambiente preenchido por discursos assertivos e prescritivos, com pouca margem para dúvidas e contradições. Como se os ditames de eficiência que presidem as diversas instâncias da vida contemporânea tivessem "profissionalizado" também as relações do campo (em favor de alto desempenho, alta produtividade, alta rentabilidade), sem torná-las, porém, profissionais de fato, comprometidas com a impessoalidade e a condução ética das relações.
Para que tudo seja feito, mostrado e visto rapidamente. Para que a produção jovem, recente e inédita seja logo absorvida por galerias e museus. Para que produções até então negligenciadas sejam finalmente "descobertas" ou "redescobertas" por curadores e instituições, não em perspectiva historiográfica, mas como um ato de justiça da magistratura - um tipo de reparo que não mexe em estruturas de interpretação e acaba, assim, por valorizar o juiz, em vez do alvo da negligência. Há hoje um campo no qual se mede a pertinência do trabalho de arte pelo tema de seus enunciados e pelo imediatismo de seu modo de apresentação, inclusive para efeitos nas redes sociais, algumas, por sua vez, tornadas portifólio. Um campo no qual os valores monetários e a liquidez da obra são a régua de seu sucesso.
Para cada edição do projeto Que beleza convidamos seis artistas a levar um único trabalho para uma sessão de conversas, ao longo de um dia, no ateliê de Alexandre da Cunha, no centro de São Paulo.¹ E a atividade se estende assim, a cada vez, por um único dia, um dia inteiro. A dinâmica do encontro prevê a análise e a discussão de cada proposta apresentada, uma a uma, em tempo estendido, por todo o grupo. De início, sem que haja outras informações além daquelas que a peça dá a ver; sem que seja dito pelo autor - ao menos num primeiro momento - algo sobre de que modo, com que materiais ou com que operações a obra foi realizada. A fim mesmo de estimular entre os participantes a interrogação dos objetos, sem apoio em dados externos, em elementos exógenos; para exercitar relações diretas com os objetos, sem mediação, e para testar o que cada objeto é capaz de apresentar, sugerir e dar a pensar apenas com aquilo que o constitui fisicamente. Mas, em seguida, durante a conversa, o detalhamento dos processos de feitura guia também os diálogos.
Para a escolha dos participantes, ou de cada grupo de participantes de uma edição, privilegiamos artistas que lidam com linguagens variadas, frequentam círculos culturais distintos e pertencem a gerações diferentes. A ideia é favorecer interações interpessoais novas, é desviar-se de vínculos e conversas que eventualmente tenham se estabelecido antes desse encontro, para que as relações (entre as pessoas, mas também entre as pessoas e as obras) se deem da forma mais desarmada possível, ou pelo menos com chances reduzidas de afetos prévios, argumentos prontos ou coisas do tipo dificultarem o surgimento do imprevisto. Por isso também é comum que convidemos pessoas com quem temos o primeiro encontro no dia de realização das atividades.
Ainda assim, as conversas se dão no ambiente privado do ateliê. Não são abertas ao público nem são registradas em áudio, vídeo ou transcrição. Trata-se, afinal, de colocar o diálogo sobre os trabalhos em primeiro plano, à frente de sua exibição. Trata-se de circunscrever as atividades no estúdio, no ambiente do pensamento, das formações e das tentativas, ou, se preferir, na informalidade, fora de contextos considerados oficiais. Trata-se de acompanhar o pensamento do trabalho ainda em formação, quando a obra talvez esteja até materialmente pronta, mas se encontra ainda, durante aquele seu aparecimento, em algum nível de elaboração. Interessa ao projeto, nesse sentido, expor e discutir o pensamento do trabalho mais do que apresentar seus resultados.
Depois das conversas, sim, o ateliê é aberto à visitação. O que os visitantes encontram ali é uma espécie de resíduo daquela sessão. Os trabalhos seguem montados, disponíveis, mas não há discurso curatorial que se arrisque a dar unidade àquela variedade. Não há plano de expografia que aproxime ou relacione uma peça à outra. Em definitivo, aquilo não é um seminário, e o que resulta dali tampouco é uma exposição. O programa de cada edição do projeto se completa com a apresentação de uma performance - cênica, musical, literária ou tudo isso ao mesmo tempo -, realizada por outro artista convidado. O que também não torna o encontro um evento. Sua escala é intimista demais para isso.
O próprio título do projeto evoca uma dimensão contemplativa para a atividade: Que beleza. Sem idealizações românticas, essa contemplação de algum jeito repõe a noção de experiência em tom, quem sabe, humilde - de despojamento, surpresa, ou de satisfação com o conhecimento, como aquilo que se percebe na aquarela homônima de Mira Schendel, de 1966, ou na música também homônima de Tim Maia, gravada em 1974, durante sua fase chamada racional. É isso: parar um dia para ver, pensar, falar e trocar ideias a respeito do objeto diante do qual nos posicionamos, sem que isso redunde em exposição, evento ou produto. Pergunta: a principal matéria do projeto seria, então, a contraforma do trabalho de arte? Seria o espaço em torno da obra, aquele que a rodeia? Seria o intervalo entre a obra e o corpo do observador? Além disso: seria esse espaço uma espécie de área negativa, vazia, mas constitutiva do trabalho de arte, por ser ali que se abrem as interrogações e tantas outras visões, ideias, sensações?
Chegar agora ao espaço de uma galeria implica, sem dúvida, desafiar o espaço comercial para que ele seja também, ao menos um pouco, um estúdio. A tentativa que se faz aqui é de entrar nestas salas com as coisas ainda em processo, talvez inacabadas, sem mobiliário expográfico, sem costura curatorial entre as obras, colocadas de maneira mais ou menos intuitiva, mais ou menos estudada. Implica lidar com as atividades desse espaço sem que elas orientem as decisões por completo. É trazer para o setor do mercado uma iniciativa que se pretende independente, livre e sem tantos contornos, tendo que se ajustar à natureza e às condições do lugar e procurando, contudo, perturbar o modo como a galeria funciona e é normalmente vista. Pensamos, aliás, em como esse ingresso do projeto na galeria em alguma medida reproduz a dinâmica de distribuição de espaços que está na origem de nossas bolações.
Aqui na galeria Luisa Strina, o programa está dividido em duas partes. A primeira consiste na apresentação de um grupo de trabalhos de artistas que participaram das três primeiras edições do projeto, ocorridas entre 2023 e 2024. No meio desse período de apresentação dos trabalhos, de maio a julho de 2026, o programa recebe para conversa o grupo de artistas Vilanismo, que desde 2021 produz ações, instalações, oficinas e projeções de vídeo em espaços públicos e institucionais, principalmente na cidade de São Paulo. Já a segunda parte prevê a realização da quarta edição do Que beleza, no formato idealizado lá atrás, só que desta vez em uma das salas expositivas da Luisa Strina.² E, daqui, as vontades continuam as mesmas, além de incluírem o desejo de expansão das vozes, do alcance e das experiências do projeto.
— Alexandre da Cunha e José Augusto Ribeiro
São Paulo, maio de 2026
1. Foram realizadas três edições do Que beleza até o momento: da primeira, em dezembro de 2023, participaram os artistas Daniel Albuquerque, Gabriel Torggler, Juniara Albuquerque, Mayana Redin, Marina Woisky e Patricia Leite, com performance do ator, dançarino e coreógrafo Rodrigo Andreolli; a segunda, em abril de 2024, contou com Darks Miranda, Laura Teixeira, Leandro Muniz, Mari Ra, Michel Scherer e Rafael Triboli, além de uma apresentação da cantora, compositora e instrumentista Juliana Perdigão; e na terceira, em novembro de 2024, estiveram presentes Bruno Alves, Germana Monte-Mór, Luisa Brandelli, Martha Lacerda, Natalie Braido e Otoniel Ferreira, com performance de Marcia Xavier.
2. Para esta edição, convidamos Ana Clara Tito, Aretha Sadick, Alexandre Balthazar, Arorá, Bruno Moutinho e Kelton Campos Melo para a sessão de conversa, além de Brian Poeta e Ricca Aguilar para a realização de uma performance.
Alexandre da Cunha e José Augusto Ribeiro convidam
26 maio — 18 julho
Bruno Alves, Daniel Albuquerque, Darks Miranda, Gabriel Torggler, Germana Monte-Mór, Juniara Albuquerque, Laura Teixeira, Luisa Brandelli, Mari Ra, Martha Lacerda, Mayana Redin, Michel Scherer, Natalie Braido, Oto Ferreira, Patricia Leite, Rafael Triboli
2 julho, 19h
Conversa com Vilanismo
21—25 julho
Alexandre Balthazar, Ana Clara Tito, Aretha Sadick, Arorá, Bruno Moutinho, Kelton Campos Melo
21 julho, 19h
Abertura + performance com Brian Poeta e Ricca Aguilar