Apresentação

Anna Maria Maiolino: Presença, Presença, Presença

 

A minha arte não é linear. O trabalho retorna, circula, mas sempre a partir de um novo ângulo. Como disse Gilles Deleuze, a diferença é tanto no começo quanto no fim da repetição. Essa é uma verdade para os meus desenhos e para tudo o que eu já fiz.

⁠- Anna Maria Maiolino1

 

A obra de Anna Maria Maiolino ganha vida não apenas à medida que é concebida, criada e recriada por seu corpo, mas também à medida que é testemunhada e vivenciada pelos corpos daqueles que a encontram. A artista trabalha em séries, construindo um repertório de formas e ideias em sua mente e com as mãos - uma espécie de vocabulário gerativo - ao qual retorna repetidamente, altera e desenvolve, em um processo de repetição e diferença. Maiolino se interessa pelas origens das coisas, mas não se preocupa com o tempo linear. Ela descreve seu trabalho como originário de memórias profundamente inscritas no corpo, muitas vezes ligadas à sua experiência como mulher. Em sua exposição Presença, um conjunto de obras revela uma insistente presença corpórea, evocada por meio de uma multiplicidade de materiais e formas, distintos entre si, mas interligados, que manifestam a precariedade de seu corpo e testemunham também a nossa. Desde a trajetória do sopro que molda as esculturas de vidro da série Emanados (2007/2026), às impressões corporais nas esculturas murais em cerâmica São Seis Raku (2025), passando pelas formas fantasmagóricas do interior do corpo nas radiografias que compõem Marcas na Transparência (1998), pela constelação de aspecto esquelético de Na parede (2026), pelo vestígio da mão nos desenhos Na Noite - No Escuro (2025) e pelo olhar vigilante presente na fotografia X, da série Fotopoemação (1974). A presença insistente de Maiolino se corporifica na materialidade dessas obras, enquanto nossa própria presença encarnada é parte constitutiva da vitalidade contínua do trabalho.

 

Na série Emanados, uma série de esculturas em vidro, o vidro torna-se ao mesmo tempo recipiente e corporificação do sopro. Formadas pelo sopro do vidro fundido em formas orgânicas, essas formas dilatadas são vasos delicados, espaços tenros que protegem a força vital da respiração. As formas foram criadas pelas exalações de Maiolino e, por sua vez, nosso próprio fôlego preenche esses reservatórios. Nossos corpos se ligam ao da artista, e nossos ciclos respiratórios, repetitivos, mas não lineares, se fundem. Respirar é um gesto invisível e reiterado que sustenta a vida. Na obra de Maiolino, o processo constante e repetido da respiração é uma forma de trabalho criativo que conecta cada instante do tempo. Em Emanados, compartilhamos com Maiolino um "sopro vital", evocando um poema escrito pela artista em 1971:

 

AJJJJJJJJJJ
HAAAAAAAAAA
in
out
vivo
AJJJJJJJJJJ
HAAAAAAAAAA
ar
aspiro
vida-corpo
expiro
atravesso a janela do mundo
AJJJJJJJJJJ
HAAAAAAAAAA
aspiro
expiro
ritmo
sopro vital
AJJJJJJJJJJ
aspiro

sobrevém a escuridão
o silêncio.

[1971]2

 

Paralelamente às suas experiências com a poesia concreta no início dos anos 1970, Maiolino começou a desenvolver a série de desenhos Mapas Mentais (1972-99), na qual utilizava a estrutura de uma grade e a repetição de marcas, intercaladas por palavras compostas com Letraset3, para questionar significados fixos e articular a experiência fragmentada da migração, do deslocamento e da vida sob a opressão da ditadura militar brasileira (1964-85). Maiolino afirma que o desenho é sua respiração. É uma prática vital que a sustenta. Ao reconhecer o desenho como a primeira forma de expressão artística da humanidade, explica que essa prática lhe oferece um "storyboard do pensamento"4. Ela remonta sua relação com o desenho ao momento em que começou a estudar arte, aos 16 anos, após emigrar com a família da Itália do pós-guerra para a Venezuela, em 1954, antes de se estabelecerem no Brasil, em 1960. A artista considera seus desenhos como trabalhos "com" o papel, e não "sobre" o papel. Na década de 1970, isso se manifestou em rasgos, cortes e fendas, tratando o papel como um material maleável. A partir dos anos 1980, a folha passou a se tornar "um espaço de acolhimento para a ação do gesto"5. Na série Na Noite - No Escuro, marcas repetidas se acumulam em redes de formas orgânicas, muitas vezes semelhantes a células. Esses desenhos são produzidos como rituais cotidianos e podem ser compreendidos como investigações da memória e do subconsciente. Assemelham-se a constelações, cartografias, paisagens e massas orgânicas. As marcas se agregam em formas que se expandem e se contraem. São manifestações de um tempo corporal, criativo e não linear, que resiste à categorização e ao confinamento. Maiolino entende que toda a sua obra se torna uma afirmação política quando é apresentada ao público, quando sua presença é compartilhada com outras pessoas, seja uma performance, um desenho abstrato ou uma escultura6. As marcas insistentes de Na Noite - No Escuro, traçadas com caneta branca permanente, brilham sobre o papel preto: incisivas, resolutas e resistentes em sua irregularidade reiterada. "Estou viva", elas afirmam. De novo. E de novo.

 

Essa vitalidade insistente, o "vida-corpo" do poema de Maiolino de 1971, continua a reverberar na série Marcas na Transparência, em que o "espaço de acolhimento" do papel é substituído por radiografias do próprio corpo da artista. Essas imagens íntimas revelam o interior de seu corpo, evocando uma sensação de vulnerabilidade. Elas "recebem" gotas de tinta que escorrem, deslizam e se infiltram em silhuetas que circundam um esqueleto espectral. Maiolino descreve a tinta como "um agente transformador", cujas aparições corpóreas sobre as radiografias "evocam, reforçam e intensificam ainda mais o sistema de produção desses desenhos: corpo/matéria e as inter-relações entre a força da gravidade e os impulsos do meu próprio corpo"7.

 

A obra de Maiolino evoca sempre a presença performática do corpo. Sua prática pode ser compreendida como uma performance de partitura em permanente transformação, uma partitura que, segundo a artista, "se expande quando mudo de meio e de técnica"8. Em 1989, Maiolino começou a trabalhar com argila: "Quando encontrei a argila, todo o meu trabalho mudou"9. Ela sentiu que tudo era possível com esse meio tátil e considera que foi nesse momento que sua cosmovisão tomou forma. A artista recorda um momento decisivo quando, após realizar a obra em argila Um, Nenhum, Cem Mil, em 1993, seu filho lhe sugeriu a leitura de Diferença e Repetição, do filósofo francês Gilles Deleuze. Ao concluir o livro, em 1999, ficou profundamente comovida com as afinidades que reconheceu entre a filosofia de Deleuze, sua própria prática artística e as raízes de sua experiência vivida na cultura calabresa do sul da Itália, onde nasceu. Ela se lembra de observar a mãe preparando nhoques, moldando repetidamente suas formas, embora nenhuma fosse idêntica à outra, em razão dos gestos orgânicos e da inevitável irregularidade da mão humana. A partir daí, passou a criar instalações compostas por formas de argila crua organizadas em séries, grades, montes e constelações, que podiam ser recicladas, reconstituídas e remodeladas ao término de cada exposição. Essas formas eram moldadas à mão, por meio de gestos cotidianos, assim como os nhoques preparados por sua mãe. São manifestações de rituais diários, que conservam os traços dos movimentos do corpo ao mesmo tempo que evocam seus processos internos, repetitivos e essenciais, da ingestão à excreção. Essas obras também remetem ao trabalho reprodutivo dos corpos das mulheres, frequentemente invisibilizado, uma forma de repetição que sustenta os corpos daqueles de quem elas cuidam. O trabalho doméstico repetitivo não é simplesmente a repetição da mesma tarefa, mas a recriação contínua do presente. Tanto Maiolino quanto Deleuze distinguem uma forma estéril e rígida de repetição, que o filósofo chama de "repetição do mesmo", de uma forma criativa, a "repetição da diferença"10. Esse fazer e refazer acolhe necessariamente a transformação contínua e resiste à linearidade.

 

Em 1997, Maiolino realizou suas primeiras peças em raku, envolvendo suas formas de argila às chamas e à fumaça do processo de queima. Embora o intenso calor do forno fixe definitivamente cada forma, as esculturas produzidas por essa técnica preservam em sua superfície os vestígios imprevisíveis da queima, deixando marcas sinuosas e mutáveis. Em 2015, Maiolino retomou a prática do raku para criar o que chama de um "alfabeto de signos"11. São Seis Raku é uma dessas constelações, queimada no forno de seu ateliê juntamente com tecidos e folhas, cujos vestígios abstratos permanecem impressos em suas superfícies. Cada forma irregular, moldada manualmente, traz as marcas reiteradas das mãos de Maiolino, assim como os vestígios elementares do fogo e as impressões dos detritos da vida cotidiana.

 

A própria Maiolino vela por nós e por sua obra na galeria: seu olhar aparece em uma única fotografia impressa (X, da série Fotopoemação) de 1974. Com o olhar de soslaio, como se observasse atentamente algo que se aproxima, Maiolino se faz presente entre nós. No filme em Super 8 X, do qual essa imagem se origina, uma tesoura afiada é pressionada contra os olhos e a língua da artista, em um comentário visceral sobre a extrema precariedade de viver sob a vigilância, a censura e a violência da ditadura militar brasileira. Aqui, na impressão de 2026, a tesoura está inquietantemente ausente. Resta apenas o olhar de Maiolino. "Estou viva", ele nos diz. "Estou viva". "Estou viva".

 

Lotte Johnson12

Julho de 2026

 

Traduzido do inglês por Guilherme Ziggy

 


1. Fernanda Brenner e Anna Maria Maiolino, "Finding Meaning in the Pauses: A Drawing Life" [Encontrando sentido nas pausas: uma vida de desenho], Now Voyager, 14 de julho de 2026. Disponível em: https://nowvoyagermag.com/art-photography/finding-meaning-in-the-pauses

2. Reproduzido em Anna Maria Maiolino: a life line [Anna Maria Maiolino: vida afora], Nova York: Catherine de Zegher, 2002, p. 143.

3. Folhas de caracteres transferíveis a seco utilizadas na composição tipográfica manual antes da era digital. (N. T.)

4. Conversa com a autora, 14 de maio de 2026.

5. "A conversation between Holly Block and Anna Maria Maiolino" [Uma conversa entre Holly Block e Anna Maria Maiolino], in Anna Maria Maiolino: a life line, p. 352.

6. Conversa com a autora, 14 de maio de 2026.

7. Texto de Anna Maria Maiolino, 1998, inédito.

8. Conversa com a autora, 14 de maio de 2026.

9. Ibid.

10. Gilles Deleuze, Diferença e Repetição, tradução de Luiz Orlandi e Roberto Machado, Rio de Janeiro: Graal, 1988, p. 24.

11. Conversa com a autora, 14 de maio de 2026.

12. Lotte Johnson é curadora e historiadora da arte radicada em Londres. A partir de uma perspectiva feminista, seu trabalho dedica-se frequentemente a práticas interdisciplinares e diálogos transculturais. É curadora da Barbican Art Gallery, em Londres, onde realizou, entre outros projetos curatoriais e publicações, Beatriz González (2026), Unravel: The Power and Politics of Textiles in Art (2024, em co-curadoria com o Stedelijk Museum Amsterdam) e Carolee Schneemann: Body Politics (2022), além de comissões individuais para os artistas Citra Sasmita (2025), Toyin Ojih Odutola (2020), SERAFINE1369 (2019), Yto Barrada (2018) e Bedwyr Williams (2016). Também colaborou em diversas outras exposições e publicações do Barbican, entre elas Into the Night: Cabarets and Clubs in Modern Art (2019), Basquiat: Boom for Real (2017) e The World of Charles and Ray Eames (2015). Anteriormente, trabalhou no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York. É colaboradora regular de catálogos de exposições, publicações e programas públicos dedicados à arte moderna e contemporânea.

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