Apresentação

Onzes*

 

Em 1974, o número onze parece ter assombrado o jovem Alfredo Jaar. Naquele ano, ele o escreveu repetidamente em grades regulares, com instâncias individuais do numeral chegando aos milhares. E também o fez em calendários, repetindo o dia onze e interrompendo o avanço diário do tempo após 11 de setembro de 1973, data do golpe militar que depôs o presidente democraticamente eleito Salvador Allende e lançou o Chile em uma brutal ditadura militar de dezessete anos. "Solo once después del once", escreveu o artista.

 

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As repetições de Jaar dão voz a uma realidade arrepiante, muito diferente do retorno (aparentemente) arbitrário, por exemplo, de 18 de novembro, a data que mantém Tara Selter, protagonista do romance em sete volumes Sobre o cálculo do volume, da escritora dinamarquesa Solvej Balle, presa em um ciclo temporal suspenso. Ao expressar a impossibilidade de ultrapassar os acontecimentos de 11 de setembro, seja afirmando a sombra do golpe sobre tudo o que viria depois, seja revelando um presente aprisionado em um ciclo compulsivo de repetição, marcado pela raiva, pelo luto ou pelo trauma, Jaar recorreu aos onzes para assinalar a impossibilidade de simplesmente seguir em frente. Suas datas estão "estupefatas, paralisadas", nas palavras da crítica chilena Adriana Valdés, uma das primeiras e mais importantes apoiadoras da obra de Jaar1.

 

Nas obras mais diretas desse conjunto - as grades de onzes sobre papel pautado amarelo, branco e azul de September 11 (Yellow) [Onze de setembro (amarelo)], September 11 (White) [Onze de setembro (branco)] e September 11 (Blue) [Onze de setembro (azul)], ou ainda a disposição regular dos calendários compostos com caracteres Helvetica Letraset brancos e vermelhos sobre fundo preto em September 11, 1973 (Black) [Onze de setembro de 1973 (preto)] - a repetição assume um caráter compulsivo, quase alucinatório, em sua austeridade. Fileiras e mais fileiras de onzes, como se insistissem em atravessar o próprio número para dele extrair algum sentido ou, como um bloqueio no fluxo linear do tempo, uma repetição dotada da simplicidade brutal de um pesadelo recorrente.

 

September 11, 1973 (Coke) [Onze de setembro de 1973 (Coca-Cola)] apresenta essa repetição de outra maneira, distribuindo uma sequência de onzes sobre um calendário promocional produzido pela Coca-Cola, adornado com imagens alegres de pássaros, flores e homens, mulheres e crianças em paisagens verdejantes ao longo de suas seis páginas, cada uma correspondente a um bimestre. Além disso, o calendário traz trechos do célebre jingle "I'd Like to Buy the World a Coke", que acompanham os meses do ano com seu sentimentalismo açucarado. Os versos reproduzidos são:

 

Gostaria de construir um lar para o mundo e preenchê-lo de amor

Cultivar macieiras, abelhas e pombas brancas como a neve

Gostaria de ensinar o mundo a cantar em perfeita harmonia

Gostaria de comprar uma Coca-Cola para o mundo e lhe fazer companhia

Gostaria de ver o mundo, ao menos uma vez, de mãos dadas

E ouvi-lo ecoar pelas colinas em nome da paz por toda a terra

 

Dois casais diferentes, em paisagens distintas, embora igualmente verdejantes e idílicas, figuram, sem saber, sobre a intervenção de Jaar, enquanto o texto publicitário, composto em uma tipografia amarela de contornos suaves, expressa um desejo de unidade e paz ao lado do conhecido logotipo vermelho, em forma de quadrado, que convida o espectador a "Aproveitar a Coca-Cola".

 

A linguagem e as imagens, inteiramente a serviço da venda de uma Coca-Cola, são suficientemente chamativas para que, à primeira vista, a intervenção de Jaar passe despercebida. Isso não surpreende, já que o objeto original funciona antes como publicidade do que como calendário. Aos poucos, porém, os "onzes" infiltram-se na imagem, sutilmente impregnando as imagens de arquivo com uma inquietação crescente, ao mesmo tempo que suscitam, de maneira implícita, a pergunta, talvez formulada de outro modo em um calendário em língua inglesa, sobre o que teria provocado aquele deslocamento das datas: um erro de impressão? Um acontecimento geopolítico remoto e sem maiores consequências? Ou a transformação catastrófica da vida de milhões de chilenos?

 

A gramática de September 11, 1973 (Coke), resultante da fusão entre uma felicidade fabricada, produzida pelo texto e pelas imagens, e a dura realidade inscrita em suas datas, antecipa uma questão que passaria a ocupar o artista em seu primeiro grande projeto, Studies on Happiness [Estudos sobre a felicidade]. Desenvolvido entre 1979 e 1981, esse trabalho toma a categoria aparentemente simples e ingênua da felicidade como ponto de partida para investigar uma questão mais profunda: como poderiam se apresentar a tranquilidade, a alegria e a calma sob uma ditadura? Trata-se, em essência, de uma investigação sobre a tensão entre superfície e profundidade. Nesse projeto, Jaar dirigiu aos habitantes de Santiago as perguntas "Você é feliz?" e "O que significa felicidade para você?", registrando suas respostas. O trabalho desdobrou-se em sete fases, buscando construir um retrato de Santiago e abrir um espaço para abordar, ainda que de forma indireta, o desgaste provocado pela violência política, pela censura e pela instabilidade econômica que marcavam o Chile naquele período.

 

Studies on Happiness começou com uma fase inicial de pesquisa, antes de avançar para levantamentos realizados nas calçadas em junho de 1980 (fase dois), entrevistas privadas (fase três), exposições da documentação resultante (fase quatro), a apresentação de pessoas "felizes" e "infelizes" em um centro cultural de Santiago (fase cinco), uma série de intervenções públicas com a frase "¿Es Usted Feliz?" [Você é feliz?] impressa em outdoors espalhados por Santiago (fase seis), culminando finalmente em uma instalação interativa em vídeo, An Open Work - A Non-Stop Record, apresentada no Museu Nacional de Belas Artes em dezembro de 1981 (fase sete). Para um artista cuja formação em arquitetura o levou a privilegiar constantemente o contexto em sua obra e a ver, compreender e sintetizar por meio da arte, desenvolvendo um modo de produção que foi apropriadamente chamado de "uma estética do testemunho"2, as primeiras manifestações dessa atenção ao lugar tomaram forma no Chile, no modo como formulou essas perguntas e nas respostas que recebeu dos outros. Ao descrever uma ampla conversa, com duração de várias horas, entre o público e seus participantes "felizes" e "infelizes", realizada na fase quatro do projeto, Jaar identificou "uma liberdade na arte e a possibilidade de criar novas situações e ambientes"3, algo que, pode-se dizer, continua a ocupar sua prática desde então.

 

Alternando entre conversas ativas e uma documentação construída de maneira concisa, o projeto de Jaar mantém aberto um espaço para opiniões privadas, colocadas em contraposição à quantificação e à representação objetiva. Studies on Happiness incentivou os participantes a falar, nas ruas, em ambientes privados, em grupos ou diante de um monitor de vídeo, e, ao fazê-lo, constituiu-se como um veículo para uma forma de testemunho e depoimento particularmente importante naquele momento no Chile, quando as revelações sobre a violência política e as sombras dos detidos e desaparecidos do país tornavam imperativo falar. Ao longo de suas sete fases, a natureza iterativa do projeto de Jaar privilegiou uma abertura renovável, uma espécie de folha em branco que estimulava, ou ao menos possibilitava, algum grau de honestidade compartilhada no espaço público e entre desconhecidos. Em Studies on Happiness, Jaar buscou particularizar o anonimato habitual do rosto por meio da honestidade da voz, na medida em que seus participantes se sentiam capazes e à vontade para falar. Se a obra acabou sendo um retrato dessa inter-relação furtiva, trata-se, ainda assim, de um exercício de retratar e dar voz.

 

E, no entanto, apesar de todo o anonimato implícito em Studies on Happiness, com seus levantamentos abertos nas ruas, microfones desprotegidos, monitores de vídeo cintilantes e outdoors aparentemente onipresentes, grande parte da obra de Jaar no Chile e sobre o Chile permanece enraizada em sua especificidade histórica individual: Buscando a Kissinger; Kissinger, Allende, Kissinger, Kissinger, Allende; Pablo [Picasso], Pablo [Neruda], Pablo [Casals], Pablo. Ao observar essas obras hoje, assim como naquele momento, nos vemos entre esses nomes, enredados pelo contexto, presos ao tempo.

 

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Edward A. Vazquez4

Julho de 2026

 

Traduzido do inglês por Guilherme Ziggy

 


*Este texto incorpora elementos de Edward A. Vazquez, Alfredo Jaar: Studies on Happiness [Alfredo Jaar: estudos sobre a felicidade], Cambridge, MA/Londres: MIT Press/Afterall Books, 2023.

1. Adriana Valdés, "Missing Chile: Far South. Far. Very Far" [Sentindo falta do Chile. Extremo sul. Longe. Muito Longe], em Frank Wagner et al., Alfredo Jaar, The Way It Is: An Aesthetics of Resistance [Alfredo Jaar, a maneira como é: estética da resistência], Berlim: Neue Gesellschaft für Bildene Kunst, 2012, p. 183.

2. Patricia C. Phillips e Alfredo Jaar, "The Aesthetics of Witnessing: A Conversation with Alfredo Jaar" [A estética do testemunho: uma conversa com Alfredo Jaar], Art Journal, v. 64, n. 3, outono de 2005, pp. 6-27.

3. Alfredo Jaar apud Ana Foxley, "Felicidad en la Mira" [Felicidade em foco], Hoy, 9-12 de janeiro de 1982, p. 42. Vale notar que Jaar ainda descreve a força dessa experiência em termos bastante semelhantes. Ver sua discussão mais recente sobre o mesmo evento em conversa com Luis Pérez-Oramas em Pérez-Oramas, El Poder de una Idea: Un Espacio de Tiempo con Alfredo Jaar y Luis Pérez-Oramas [O poder de uma ideia: um espaço de tempo com Alfredo Jaar e Luis Pérez-Oramas], org. Yanina Valdivieso, Nova York: Fundación Cisneros, 2021, pp. 38-41.

4. Edward A. Vazquez é professor do Departamento de História da Arte e Arquitetura do Middlebury College. Pesquisador da arte moderna e contemporânea, dedica-se às relações entre materialidade e processos cotidianos de produção artística após a arte conceitual na Europa e nas Américas. É autor de Aspects: Fred Sandback's Sculpture [Aspectos: a escultura de Fred Sandback] (The University of Chicago Press, 2017) e Alfredo Jaar: Studies on Happiness [Alfredo Jaar: estudos sobre a felicidade] (Afterall/MIT Press, 2023).

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